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Igualdade de gênero, saúde e trabalho

 

Liliana Andolpho Magalhães Guimarães-UCDB/USP

Miryam Cristina Mazieiro Vergueiro da Silva USP

Duílio Antero de Camargo-USP

Fatima Macedo-USP

 

RESUMO

A saúde do trabalhador, como campo de pesquisa, relaciona saúde/doença ao processo produtivo e se situa dentro da saúde coletiva. Esta, por sua vez, sendo um campo de conhecimento, estuda tal relação enquanto um processo social, que acontece de forma coletiva A produção científica no campo do gênero, saúde e trabalho ainda se mostra restrita e seu desenvolvimento é inicial, particularmente no tocante à saúde, constituindo campo aberto para futuras explorações.

 

Palavras-chave: gênero; saúde; trabalho

 

Antecedentes históricos

O trabalho faz parte da cultura social desde as civilizações mais antigas que se formaram no mundo (Stearns, 2007). Seu significado para sociedade e para os indivíduos que a constituem variam em função do próprio trabalho, da cultura de valores que o envolve e, ainda, da percepção subjetiva das pessoas (Martinez, Paraguay & Latorre, 2004). Da mesma maneira, as relações de gênero permeiam a atividade laboral, de acordo com culturas e épocas diferentes e influenciam tanto no tipo de trabalho, quanto nas condições em que ele é desempenhado.

Um estudo publicado na revista Nature (2015) mostra que o homem das cavernas não era tão primitivo assim. No começo da civilização humana (mais conhecida como pré-história), existia igualdade de gênero. Na pré-história, homens e mulheres tinham o mesmo poder sobre o grupo.  Durante o período paleolítico, as pessoas se organizavam em tribos de coletores e caçadores e homens e mulheres tinham a mesma influência sobre as decisões dos grupos, segundo Dyble (2015, p. 3)

 

Existe uma percepção geral de que os coletores e caçadores eram mais machos ou dominados por machos. Nós afirmamos que foi apenas com o advento da agricultura, quando as pessoas puderam começar a acumular recursos, que surgiu a desigualdade.

Segundo o especialista, a igualdade entre os sexos pode ser um dos importantes fatores que nos diferencia dos nossos parentes primatas. “Chipanzés vivem em sociedades bastante agressivas, dominadas por homens e com hierarquias claras”.

Por volta do quarto milênio antes de Cristo, por exemplo, quando as civilizações antigas (como Mesopotâmia, Egito Antigo e outras) começaram tomar forma, a agricultura favoreceu o estabelecimento de papéis bem definidos entre homens e mulheres, o que culminou nas sociedades patriarcais, nas quais as mulheres cuidavam da casa e dos filhos e os homens da lavoura (Stearns, 2007).

Nas sociedades contemporâneas ainda existem diferenças acentuadas entre os gêneros, conforme mostraram os resultados de um acompanhamento das tendências de empregos das mulheres nesta última década, realizado pela Organização Internacional do Trabalho (2008).

As mulheres estão mais ligadas a setores menos produtivos da economia, recebem piores salários e têm menos acesso a trabalhos dignos que lhes possibilitem expressão e assegurem direitos sociais de proteção ao trabalhador. Na América Latina e Caribe, a maior parte das mulheres trabalha no setor de prestação de serviços (74,8%), contra 48,2% dos homens. A outra parte está empregada nos setores agrícola e industrial. Houve um aumento de 3,9% na proporção de mulheres que trabalham por conta própria, coincidindo com o aumento do trabalho informal, ramo de emprego mais vulnerável por não garantir certos direitos do trabalhador. Isso não é um bom indicador por configurar um futuro instável para as perspectivas econômicas das mulheres. Apesar disso, houve um aumento da participação da mulher no mercado de trabalho de 47,9% para 52,9%.

O filósofo Jean Jacques Rousseau (1712-1778) refletia sobre a oposição entre natureza e sociedade e o possível equilíbrio entre as necessidades básicas do ser humano com as do meio físico. Para ele, a origem dos males da civilização, como a desigualdade, estava no aparecimento da propriedade privada, que produzia uma forma de conduta moral degenerada das pessoas, com sentimentos como o egoísmo e o desejo de posse.

Já a escritora e filósofa Simone de Beauvoir defendeu em seu livro “O Segundo Sexo” que a hierarquização dos sexos é uma construção social, não uma questão de biologia. Para ela, a condição da mulher na sociedade é uma construção da sociedade patriarcal, que teve início com o surgimento da propriedade privada. Ou seja, quando alguém lhe falar que as mulheres são biologicamente diferentes dos homens e por isso recebem salários menores ou estão em desvantagem em qualquer área, você pode desmentir a informação com pesquisas científicas.

 

Sexo é diferente de gênero

Sexo e gênero, apesar de ocasionalmente serem utilizados como sinônimos, são dois conceitos diferentes. Sexo é entendido como a representação das características físicas do indivíduo, enquanto gênero é um conceito complexo, sendo o conjunto de sentimentos, assertivas, atitudes e comportamentos a partir dos quais se reconhece o indivíduo (Silva et al, 2008).  É o conjunto de crenças, valores, atitudes e sentimentos diferenciados entre homens e mulheres construídos socialmente (Borrel; Artazcoz, 2008; Emxzlie, 2002).  Por meio desses valores, homens e mulheres adotam determinados comportamentos e atitudes que entendem ser mais condizentes com o esperado socialmente acerca do que venha a ser um homem ou uma mulher Figueiredo e Schraiber (2010).

Segundo Rohlfs (1999), os papéis atribuídos e assumidos por homens e mulheres são importantes na explicação e compreensão de seu estado de saúde.

Há aproximadamente cinquenta anos, a Organização Internacional do Trabalho adotou aquele que ainda é o mais completo instrumento internacional sobre a não discriminação e igualdade no mundo do trabalho. A Convenção sobre a Discriminação (Emprego e Profissão), de 1958 (nº. 111) teve para o seu tempo uma forte visão de futuro, e mantém-se tão importante hoje como o foi nos finais dos anos cinquenta.

Para nos mantermos no caminho certo para a igualdade, é tempo de identificarmos e removermos os obstáculos que subsistem e promovermos ativamente a igualdade de gênero.

 

Gênero e Trabalho

O número de mulheres que hoje em dia trabalha na economia formal não tem precedentes; Em 2007, 1.2 bilhões de mulheres no mundo trabalhavam, cerca de 200 milhões ou 18,4%, mais do que em 1997.

Existe uma maior proporção de mulheres nos serviços públicos e as políticas de igualdade de oportunidades estão globalmente a aumentar. Não obstante, e apesar de todos estes desenvolvimentos, as mulheres continuam a enfrenta múltiplas formas de discriminação no mercado de trabalho (ILO, 2007).

Apesar da redução do diferencial entre homens e mulheres em termos de formação acadé­mica e de experiência profissional, em termos gerais as mulheres ainda ganham   menos do que os homens, são a maioria nos empregos da economia informal e atípicos, têm de enfrentar mais obstáculos para aceder e manter altos cargos e suportam o peso das responsabilidades familiares de forma desigual (Mapa 1)

Continuam a existir práticas discriminatórias que se baseiam na presunção de trabalhos que são “adequados” às   mulheres.  Um exemplo de estereótipos de gênero no emprego é a crença de que as mulheres chefes e os homens chefes têm diferentes valores sobre o trabalho ou objetivos em função do sexo. Um estudo recente da Catalyst (2008) mostra que os homens e mulheres executivos nas principais empresas mundiais partilham as mesmas prioridades acerca daquilo que consideram mais importante para o local de trabalho e suas carreiras ou à sua função reprodutora.  Uma pesquisa no Reino Unido mostrou que 52% dos chefes considera a gravidez da candidata como potencial, olhando para a idade da candidata e o estado civil. Setenta e seis por cento dos chefes inquiridos não contratariam uma nova candidata que sabiam poder engravidar dentro de seis meses após começar a trabalhar. (BBC, 2008). As mulheres, mais que os homens, são, também, vítimas de assédio sexual no emprego.

 

As atuais mudanças ocorridas no setor produtivo não propiciaram igualdade de condições entre homens e mulheres. Ao contrário, a nova ordem econômico-social vem perpetrando hierarquias, desigualdades e assimetrias historicamente construídas (Diogo, 2006).

O adoecimento mental caracteriza-se por uma determinação complexa que envolve as dimensões econômica, social, política e cultural, expressando-se diferentemente nas relações de gênero (Ludemir, 2008). Essa diferenciação, porém, segundo a autora, não é reconhecida nos serviços de saúde, não se expressa nos diagnósticos formulados e a maioria dos profissionais não presta acolhimento adequado aos portadores de sofrimento mental.

 

Gênero, Saúde e Trabalho

O contexto que permeia a construção do sentido do trabalho passa a fazer parte da subjetividade do indivíduo, que por sua vez está sob influência do meio, podendo sofrer positiva ou negativamente dependendo da forma como ele é vivido (Martinez et al., 2004). Considerando essas relações, alguns estudos que relacionam saúde e trabalho vêm mostrando seus impactos para a sociedade e a vida das pessoas. O baixo rendimento nas atividades laborais, por exemplo, ocorre com maior frequência em pessoas com distúrbios ansiosos ou depressivos, que, por consequência, precisam se ausentar do trabalho (Haslam, Atkinson & Haslam, 2005; Sanderson & Andrews, 2006).

Segundo dados do INSS de 1998 a 2002, depressão e estresse são os dois tipos de doença mental que mais geram gastos para o sistema previdenciário brasileiro (cerca 27% do montante foi gasto apenas com as doenças depressivas), enquanto o alcoolismo aparece na quarta posição (Barbosa-Branco, 2002).

Vários estudos enfocam a saúde e o bem estar dos trabalhadores através do impacto de variáveis psicossociais, sociodemográficas, socioculturais e do ambiente (D'Souza et al., 2005; Gamperiene, Nygard, Sandanger, Waersted & Bruusgaard, 2006; Godin, Kittel, Coppieters & Siegrist, 2005; Nascimento- Sobrinho, Carvalho, Bonfim, Cirino & Ferreira, 2006). Em contrapartida, outros se dedicam às características individuais que podem contribuir para os estados de saúde ou doença no trabalho, tais como: gênero, percepções dos riscos laborais, satisfação, motivação com o trabalho, atitudes e comportamentos de risco, dentre outras (Chau et al., 2004a, 2004b; Gauchard et al., 2003; Ghosh et al., 2004).

Diferenças no comprometimento da saúde entre os gêneros são comumente encontradas na literatura nas diversas atividades laborais (Marklund, Bolin & Essen, 2008). Alguns encontraram aspectos de saúde mental mais comprometidos entre mulheres (Evans & Steptoe, 2002; Rocha & Debert-Ribeiro, 2001), especialmente em trabalhos em que são numérica ou culturalmente a minoria (Evans & Steptoe, 2002).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A saúde do trabalhador, como campo de pesquisa, relaciona saúde/doença ao processo produtivo e se situa dentro da saúde coletiva. Esta, por sua vez, sendo um campo de conhecimento, estuda tal relação enquanto um processo social, que acontece de forma coletiva. A produção científica no campo do trabalho e gênero ainda se mostra restrita e seu desenvolvimento é inicial, particularmente no tocante à saúde, constituindo campo aberto para futuras explorações.  

 

REFERENCIAS

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