Emoções acirradas para além de um reality show


O país acompanhou, nos últimos dias, a repercussão da eliminação da participante Karol Conká, do programa Big Brother Brasil, que teve um índice recorde de rejeição de 99,17% dos votos.


Para preservar a integridade da cantora, a Globo montou um forte esquema de escolta para que ela pudesse se locomover da casa do BBB até o hotel em que ficaria hospedada, já que havia pessoas aglomeradas na porta da emissora com o objetivo de hostilizá-la.


Ao longo do período em que permaneceu no reality show, Conká demonstrou atitudes e comportamentos que não foram aceitas pelos demais ‘brothers’, assim como pela opinião pública.


A nossa sociedade atual está mais atenta a questões que envolvem racismo, xenofobia, machismo, violência psicológica ou bullying, e atitudes preconceituosas não estão mais sendo toleradas.


Nesse contexto, a Cultura do Cancelamento é um movimento que ganhou força nas redes sociais nos últimos anos como uma forma de ‘punir’ as pessoas por emitirem opiniões, que em nossa visão são equivocadas sobre determinado tema.


Porém, da mesma forma que as pessoas não aceitam comportamentos como os demonstrados no BBB pela rapper Karol Conká, a reação coletiva decorrente de situações como essas, geralmente são marcadas por discursos de ódio e linchamento virtual.


O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925–2017), autor do conceito de Modernidade Líquida, já alertava sobre os impactos das redes sociais muito antes da expressão “cultura do cancelamento” ser eleita, em 2019, como o termo do ano pelo Dicionário Macquarie.


Em uma entrevista ao jornal El País, em 2016, Bauman afirmou: “nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia. Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes”.


Nesse cenário, as Psicólogas e especialistas da Mental Clean, Thaís Gaiasso e Marinalva Gonçalves Requião, esclarecem um pouco mais sobre os aspectos que envolvem esse universo dos relacionamentos nas redes sociais, o fenômeno BBB e a Cultura do Cancelamento.


Como explicar reações tão exacerbadas, como as demonstradas aos recentes fatos no BBB?


Thaís – As redes sociais ‘vendem’ uma imagem de perfeição na qual as pessoas não podem mais cometer erros. O racismo, xenofobia, bullying e o preconceito, como um todo, estão sendo cada vez menos tolerados. Tudo isso ganhou mais força devido à Cultura o Cancelamento.

Uma pessoa pode ser cancelada por dizer algo de errado ou pelo simples fato de não compactuar com a mesma opinião da maioria.

O caso da saída da participante do reality show, com 99,17% de rejeição, reflete essa realidade.


Por que as pessoas, de uma certa forma, “institucionalizaram” o cancelamento pelas redes sociais?


Marinalva – Porque entendem que algo se torna uma regra e quem “errar” será penalizado ou punido por sua má conduta, seja em palavras, ações e/ou comportamentos.

As redes sociais é o caminho mais rápido para a comunicação e também para disseminação de informações, sejam elas verdadeiras ou falsas (como as ‘fake news’). Quando um assunto ou alguém está em “moda”, isso começa a fazer parte da rotina das pessoas. Com isso, se torna fácil institucionalizar ou decretar um novo código para o momento, e acaba virando uma nova linguagem virtual.


É mais fácil cancelar do que propor um diálogo?


Marinalva – Propor o diálogo sempre será o melhor caminho. Porém, na maioria dos casos, cancelar é mais prático, pois nas situações geradas não se pensa em diálogo para compreender a ação ou atitude de algo ou alguém.

Vale ressaltar que, por trás de alguém que é cancelado existem milhões de pessoas que, em algum momento da vida, também foram julgadas de maneira injusta, contribuindo para se sentirem no papel de juiz, julgando a ação do momento sem avaliar todo o contexto.

Existe ainda um outro fator para esse julgamento, no qual as pessoas sofrem influência do que veem, ouvem ou leem, o que pode contribuir para um cancelamento global. Como se o erro fosse um crime inafiançável, ou seja, nada do que disser irá isentar de “punição”.


O cancelamento traz prejuízos à Saúde Mental?


Marinalva – Ser cancelado, de alguma forma, pode trazer prejuízos significativos para qualquer pessoa, pois quer dizer que não foi aceito, não foi acolhido, ou ainda que “errou”. Quando isso ocorre de maneira abrupta e inesperada pode gerar um sentimento de frustração, de incapacidade e de exclusão.

Seja qual for o contexto em que se é cancelado, poderão aflorar sentimentos negativos como medo, culpa, vergonha e baixa autoestima, podendo desencadear até mesmo quadros de Depressão e Ansiedade. É importante que a pessoa tenha recursos emocionais internos para lidar com isso, porém, muitas vezes é necessário buscar ajuda profissional por meio de uma psicoterapia.


A reação à participante do BBB pode ser um sinal de adoecimento e/ou sofrimento emocional da sociedade?


Thaís – Talvez seja um sinal de alienação, as pessoas estão julgando o comportamento negativo da participante, mas, em contrapartida acabam promovendo o linchamento e o cancelamento da mesma. Repetindo assim o mesmo ato que foi julgado como errado, com o agravante da agressão.

Pode-se dizer que grande parte da população acaba projetando erros próprios no outro. Projeção é um mecanismo de defesa em que ocorre um deslocamento de um impulso interno, para algo ou alguém. No entanto, a pessoa que projeta no outro não percebe que está fazendo isso, justamente porque os conteúdos foram “expulsos” para evitar qualquer tipo de frustração.


Por mais que a sociedade não tolere alguns tipos de comportamento esse “linchamento” também não é aceitável. Isso é um paradoxo, não é?


Thaís – Sim, como dito anteriormente, as pessoas tendem a julgar o outro, mas não pensam que, na verdade, essa característica pontuada pode estar dentro da própria vivência. É o mecanismo de defesa da “Projeção”.


O contexto da pandemia, com uma quarentena prolongada, que nos tem forçado a uma situação de distanciamento social, contribui para essa repercussão histórica do BBB?


Thaís – O programa Big Brother Brasil foi muito popular nos seus primórdios. Porém, foi perdendo audiência com o passar dos anos. Foi possível notar o aumento de telespectadores no início da pandemia em 2020. Após um ano em isolamento a sociedade parecia ansiosa por outro reality, tendo em vista que o assunto se torna pauta de muitas reuniões familiares ou de amigos. Deste modo, com as famílias em casa, a pandemia pode ter colaborado para a repercussão que vem alcançando. A audiência da emissora chegou a bater 40 pontos no dia da eliminação da Karol Conká, esse número é incomum, chegando próximo a esse índice somente em final de copa do mundo.


A Cultura do Cancelamento no ambiente corporativo


Esse fenômeno também está presente nas empresas e a melhor forma de lidar com a Cultura do Cancelamento no ambiente corporativo é estabelecer um diálogo aberto com os colaboradores sobre o tema.


Há situações em que postagens com conteúdos inadequados nas redes sociais de colaboradores podem comprometer a imagem da empresa, podendo gerar, inclusive, demissões.


Por isso, é preciso que os funcionários sejam orientados por seus gestores sobre quais posturas e comportamentos impactam negativamente na imagem da empresa e que, portanto, devem ser evitados nas mídias sociais.


É importante que as pessoas se conscientizem de que as suas atividades na internet ficam registradas, e que, de alguma forma, em algum momento, repercutem em suas vidas e na dos outros.


Mais do que cancelar, é preciso exercer a habilidade de saber ouvir e entender pontos de vistas diferentes, fator essencial para que se tenha empatia por quem está sendo eliminado de algum grupo.


Todos erramos em vários momentos de nossas vidas e, ao invés de rótulos ou cancelamentos, merecemos segundas ou até mesmo terceiras chances, seja nos ambientes corporativos, nas relações familiares ou sociais! Isso é humanidade!


É possível se expressar tanto no mundo virtual como na vida real e, ainda assim, estar em harmonia em todos os ambientes, como se expressou o filósofo inglês Herbert Spencer "A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro".

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