O que estamos aprendendo com o BBB?


Um dos programas de maior audiência da TV brasileira, a 21ª. edição do Big Brother Brasil está dando o que falar dentro e fora da casa mais vigiada do país.


Ao mesmo tempo em que faz um estrondoso sucesso entre os apreciadores do reality show, o programa tem trazido para o debate nacional temas polêmicos, como racismo e o viés ou preconceito inconsciente, relacionamento abusivo, discriminação de gênero, cultura do cancelamento, entre tantos outros, decorrentes de situações de conflitos vivenciadas pelos brothers confinados.


Ao ser anunciada a relação dos participantes, o programa já mostrava ao que viria: esta é a edição com maior número de participantes não brancos nesses 21 anos de história, de 20 integrantes, 9 são negros.


“Isso após o ano de 2020, que foi marcado por episódios de racismos e protestos raciais”, enfatiza Kaká Rodrigues, Educadora Comportamental, especialista em Comunicação Não Violenta e uma das líderes do Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil.


De acordo com uma pesquisa realizada em fevereiro deste ano pela Hibou, empresa de monitoramento de consumo, com duas mil pessoas (divulgada pelo site UOL), 49,4% dos entrevistados afirmaram que assistem ao BBB por gostarem dos conflitos que ocorrem em razão das opiniões e atitudes diversas dos participantes.


Outros 25,3% gostam da atração porque relaxam depois de um dia estressante; há os 22,5% que querem assistir ao reality show por causa das festas, os 19,9% para se atualizar nas conversas com os amigos e os 19,6% que querem apenas acompanhar a rotina que ocorre na casa.


Ainda segundo o estudo, para 86% dos entrevistados, o programa já causou emoções negativas, entre elas sentimentos de raiva, tristeza, preconceito, humilhação, indignação, nojo, repúdio e falta de empatia.

Independentemente dos motivos, o fato é que cerca de 40 milhões de pessoas assistem diariamente ao reality show, sendo esta a edição de maior audiência dos últimos 11 anos.


Um dos recentes episódios polêmicos da casa extrapolou as telas do reality show e trouxe à tona um tema de grande relevância para os movimentos antirracistas, ampliando o debate sobre o viés inconsciente. A questão se deu a partir de um comentário do brother Rodolfo a respeito do cabelo em estilo Black Power do seu colega de casa João Luiz.


“O BBB é um recorte da sociedade, de como as pessoas pensam. E a sociedade clama por mudança”, diz Kaká Rodrigues.


E para nos ajudar a entender um pouco mais sobre os aspectos comportamentais envolvidos nesse grande ‘caldeirão emocional’, que vem impactando ‘brothers’ de todos os cantos do país e até mesmo os mais diversos ambientes de trabalho, a especialista concedeu a seguinte entrevista ao blog da Mental Clean:


Por que, especialmente, esta edição do Big Brother Brasil está causando tanta repercussão? Isso se deve ao fato de estar lançando luz a temáticas polêmicas e emergentes?


Estamos vivendo um momento de transição social. Tudo o que, até muito pouco tempo atrás, era permitido e tolerado no Brasil, em relação a comportamentos opressores contra grupos sub-representados, está sendo colocado em xeque.

As piadas com pessoas pretas são vistas hoje como racismo recreativo. Temos dados que apontam o perigo do preconceito de gênero para as mulheres e como o machismo afeta as nossas relações.

Para acirrar, essa edição está acontecendo num momento em que não apenas os brothers estão em confinamento, mas toda a sociedade vive o dilema e a angústia entre o isolamento social e a sobrevivência diária.

Também precisamos considerar que esta é a edição com maior número de participantes não brancos nesses 21 anos — nove de 20 brothers. Tudo isso após o ano de 2020 que foi marcado por episódios de racismos e protestos raciais. Enfim, temos um caldeirão de emoções dentro e fora da casa.


Por que os espectadores reagem com tanta raiva e intolerância às atitudes e falas dos brothers? Essa reação exacerbada, de alguma forma, pode ser salutar para o debate, ainda que sejam temas importantes de serem discutidos?


É muito difícil generalizar o porquê das reações, mas sabemos que as redes sociais são amplificadoras de discursos de ódio. Toda reação estimulada por fortes emoções tende a gerar um bloqueio na comunicação e, portanto, o diálogo e a construção de alternativas de forma colaborativa ficam comprometidos.

Por outro lado, as pessoas estão cansadas e precisando expressar as suas emoções. Estamos vivendo uma panela de pressão social. Somos um dos países mais desiguais do mundo, conservador, com tendências autoritárias, violento com grupos oprimidos... o bradar das vozes muitas vezes é uma reação de séculos de exclusão e apagamento.

Vamos precisar lidar com as nossas sombras coletivas se quisermos evoluir como sociedade e todas as vozes merecem ser ouvidas nesse processo. Afinal, quando alguém pisa no seu pé e você grita, não dá para as outras pessoas te acusarem de ter uma reação exacerbada. Ninguém, além de você, sabe que ferida você carrega no lugar que recebeu a pisada.


Houve vários episódios na casa envolvendo atitudes racistas, como o recente caso com o João, que sofreu ataque racista em razão das falas do colega Rodolfo sobre seu cabelo crespo. É um típico caso de viés inconsciente, já que Rodolfo alegou que “não fez por maldade, pois também tem um cabelo ruim...”? Como esse diálogo e discussões podem contribuir para uma reflexão mais ampla para o enfrentamento do racismo estrutural?


Recentemente, a cantora Ludmilla perdeu um processo judicial de racismo movido contra Val Marchiori. A cantora entrou na Justiça depois que a socialite comparou o cabelo dela com uma esponja de aço, durante a transmissão dos desfiles das escolas de samba, no Carnaval de 2016.

Estamos em 2021 e a nossa discussão sobre o racismo estrutural ainda se limita a ataques à estética negra. Continuamos baseando as nossas relações na nossa aparência e esquecemos da nossa humanidade.

O cabelo afro é um símbolo de cultura e resistência. O movimento negro tomou os fios volumosos em formato arredondado, nos anos 1960, como um símbolo de luta, representação e valorização da cultura e dos direitos civis nos Estados Unidos.

Mais de meio século se passou e aqui no Brasil ainda estamos tendo que discutir se pretos têm direito a serem respeitados, inclusive na sua aparência física. Sem falar dos demais aspectos de discriminação e exclusão.

A conversa entre os brothers e a fala do Tiago Leifert sobre o episódio racista certamente serviram de contribuição para uma reflexão sobre o tema. Mas, como disse a Camilla, neste momento precisamos assumir a responsabilidade pelo nosso estudo e pela nossa mudança de comportamento.

Precisamos aprofundar essa questão para temas tão mais críticos quanto o genocídio da população negra, a opressão e solidão da mulher negra e o encarceramento em massa de jovens negros. E essa conversa é para ontem.


Esta edição do programa tem trazido também a discussão sobre a cultura do cancelamento. Isso ficou evidente no episódio da eliminação da rapper Karol Conká, com mais de 99% dos votos e com uma reação exacerbada de ódio. Por que é mais fácil cancelar do que dialogar?


Dialogar demanda tempo, energia, disponibilidade de escuta, abrir mão das nossas certezas absolutas para compreender o ponto de vista, os sentimentos e as necessidades da outra parte.

Cancelar é tão simples quanto apertar um botão de ejetar. Um simples unfollow e aquele problema desaparece do meu mundo. A questão é que isso é uma ilusão. Toda exclusão gera mais ódio, polarização e o assunto irá voltar para resolvermos em algum momento.

Quando cancelamos alguém, estamos reagindo a partir da nossa criança ferida que recolhe o brinquedo quando é contrariada. Para dialogar precisamos de inteligência emocional e intenção genuína de compreensão da perspectiva do outro. Precisamos acessar o nosso adulto. E infelizmente ainda precisaremos de muita terapia e de práticas de escuta empática e comunicação não-violenta para desenvolver esse arquétipo em nós.

Nesse momento tão difícil de distanciamento social, com tantas perdas, lutos e incertezas, assistir a um programa com este perfil pode proporcionar um certo alívio e distração?


O BBB é um programa de entretenimento e como tal nos serve de distração. Sim, é um reality mas é também um show. Nem tudo o que acontece ali é espontâneo. Por outro lado, observar os conflitos, as discussões na casa e as reações aqui fora podem servir de laboratório para a nossa avaliação de que tipo de sociedade queremos para o nosso presente e futuro.

Todos temos direito ao lazer, é uma necessidade humana universal. E se pudermos aliar nossa prática de descanso a reflexões com foco na nossa evolução pessoal, ganhamos duplamente. Só precisamos cuidar para não deixar as nossas vidas de lado, virando apenas espectadores. Todo excesso faz mal.


O que estamos aprendendo com tudo isso?


O BBB é um recorte da sociedade, de como as pessoas pensam. E a sociedade clama por mudança. Não temos mais tempo! Que saibamos ouvir esse clamor por mais respeito, para que possamos valorizar a diversidade e a individualidade de cada um!

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