Saúde Mental - essa conversa é para todos!


Todo momento é propício e toda hora é hora de se falar sobre Saúde Mental!


Porém, especialmente no mês de janeiro, intensificam-se as ações informativas e de conscientização sobre esse importantíssimo tema que, por preconceito e estigma, ainda é uma abordagem que não faz parte do universo da grande maioria da população.


As doenças mentais são muito mais frequentes do que se imagina. Apenas no Brasil, mais de 20 milhões de pessoas sofrem de transtornos mentais, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde. Elas são um dos principais motivos de afastamento do trabalho.


Ainda que a pandemia da Covid-19 tenha causado impactos devastadores na Saúde Mental da população, ela tem trazido a oportunidade de se lançar um olhar atento aos problemas relacionados ao adoecimento mental e às formas de tratamento e prevenção.


“A pandemia antecipou em pelo menos cinco anos este olhar, algo que esperávamos que acontecesse lá na frente foi antecipado. Muita gente que já não estava bem, que vinha tentando driblar sintomas, piorou bastante e os quadros de ansiedade explodiram”, afirma Fátima Macedo, Psicóloga e CEO da Mental Clean.


Na recente Live “Saúde Mental e Janeiro Branco: conversa para todos e não para alguns”, realizada pelo Grupo Mulheres Brasil, Fátima Macedo e Mariana Passos, consultora de carreiras, esclareceram, de forma leve e didática, por que esse assunto, mais do que nunca, é para toda a sociedade.


Elas falaram sobre os mitos e tabus que ainda permeiam a área da Saúde Mental, discorreram sobre os transtornos mentais, seus sintomas e como tratá-los.


É preciso conhecer para enfrentar! Desmistificar a Saúde Mental é promover a chance de uma vida com mais qualidade e bem-estar a milhares de pessoas e famílias.


Confira a seguir os principais trechos dessa conversa:


Mariana Passos: Explique-nos sobre a origem da campanha Janeiro Branco e o seu propósito?


Fátima Macedo: As campanhas são muito especiais, porque elas propiciam o envolvimento de diversos profissionais ligados à temática em questão, como também levam informação de qualidade para a população.

O idealizador da Campanha Janeiro Branco, Leonardo Abrahão, era um Psicólogo inquieto, que, no final de 2013, percebeu que havia várias campanhas de conscientização na área da saúde, porém, nenhuma sobre saúde mental, na qual pudéssemos falar das nossas angústias e incertezas. E a inquietação é uma coisa maravilhosa, pois ela nos move para resolver o problema.

Então, ele começou a montar um grupo de profissionais para discutir esse tema, de maneira aberta e livre, para todos. E surgiu a ideia do “branco”, como uma analogia a um papel em branco para você escrever suas metas no começo do ano, pois janeiro é o mês da virada. E essa grande mobilização que ele iniciou está em seu oitavo ano e é a maior campanha de saúde mental que existe.

O grande propósito da Campanha Janeiro Branco é sensibilizar as pessoas para a importância do cuidado com a Saúde Mental, que durante muito tempo era uma área da vida para a qual as pessoas não ligavam.



Mariana: A psicologia, se você pensar bem, é do início do século passado. As pessoas começaram a ligar para a saúde da mente ‘ontem’...


Fátima: E nós estamos aprendendo muito sobre o tema. A neurociência vem trazendo grandes contribuições com relação ao tema da saúde mental. Agora, quanto mais nos aprofundarmos, quanto mais as pessoas cuidarem da sua saúde mental, quanto mais buscarem informação de qualidade e entenderem o assunto, mais caminharemos a passos largos em relação ao assunto.



Mariana: Nós definimos o título da nossa conversa como “Saúde Mental para todos”, não só para alguns. Por que a saúde mental é importante para todos?


Fátima: Eu desenvolvi um questionário de afirmativas, exatamente para fazer um levantamento de crenças a respeito da saúde mental. E uma das afirmações é: “A doença mental é um fenômeno raro”. É impressionante o número de pessoas que a coloca como verdadeira, e não é! A doença mental é muito mais comum do que muita gente imagina, qualquer um de nós pode adoecer, desde uma criança até um idoso podem vir a desenvolver um problema. Então, por isso que é para todos nós. É muito importante que todo mundo entenda o que é tanto a saúde quanto o adoecimento mental.



Mariana: Antigamente quando as pessoas tinham algum problema mental, eram afastadas da sociedade. Mas isso está permeando todo mundo, e é importante que, ao longo das nossas vidas, possamos olhar para isso.


Fátima: Quando eu comecei a falar sobre o tema, há 18 anos, a Organização Mundial da Saúde dizia que uma a cada quatro famílias teria um caso de transtorno mental, que 25% das pessoas, ao longo da vida, poderiam desenvolver algum transtorno mental ou comportamental. Atualmente, cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com algum tipo de transtorno mental, sendo que no Brasil são mais de 20 milhões de indivíduos que enfrentam suas dores emocionais.



Mariana: A OMS tem alertado muito sobre problemas de saúde mental decorrentes da pandemia. Você pode comentar sobre os impactos da pandemia na saúde mental das pessoas?


Fátima: Uma das oportunidades que a pandemia nos trouxe foi a possibilidade de olhar de frente para os problemas relacionados ao adoecimento mental e também às questões de prevenção. Temos falado que a pandemia antecipou em pelo menos cinco anos este olhar, algo que esperávamos que acontecesse lá na frente foi antecipado. Muita gente que já não estava tão bem, que vinha tentando driblar sintomas, piorou bastante e os quadros de ansiedade explodiram. As buscas no Google sobre como lidar com ansiedade e com depressão aumentaram muito mesmo nos últimos meses.


Até então, muita gente não dava a devida atenção para as questões de saúde mental, iam simplesmente driblando os sintomas. Muita gente se habitua a conviver com o desconforto emocional como se fosse uma coisa normal, mas não é. É óbvio que diante de um cenário como esse da pandemia, com tanta incerteza, medo de morrer, medo de pegar a doença, medo de perder alguém querido, esses sinais viraram sintomas para muita gente. Nós vamos ter que fazer uma mudança drástica com a questão da prevenção, saindo da remediação, saindo dessa cultura de negação de sinais, passando para uma cultura que caminha muito mais para a prevenção.



Mariana: Tanto na vida pessoal como na vida profissional, eu arrisco dizer que há um certo preconceito, um receio da própria pessoa. Ela nega para ela e também para a sociedade. Assumir que você precisa de ajuda nesse campo, que você precisa tomar um antidepressivo, que você está passando por um quadro de saúde mental, tem uma coisa ao redor de que não é legal, de que pega mal...


Fátima: Tem, e isso é muito forte! As pessoas têm pavor de serem mal avaliadas, de serem diagnosticadas com alguma questão relacionada a adoecimento mental, como se isso contasse sobre elas, como se fossem fracassadas. Então, muita gente evita mesmo buscar tratamento porque acabam se enxergando desta maneira: “como eu não dei conta, como eu não consegui lidar com tal situação, como assim eu adoeci emocionalmente. Eu sou fraco então? Eu sou um fracassado?”.


Ainda há muito preconceito, dentro das empresas principalmente, porque tem aquela cobrança interna de que ‘você tem de dar conta’. E, de repente, o colega ao seu lado tem recursos internos mais bem trabalhados, ou ele tem uma personalidade mais resistente. Isso não significa que você não seja bom, mas a grande maioria das pessoas tem medo de ser avaliada como não sendo boa. Por isso, muita gente foge do diagnóstico e isso é ruim. Se buscar ajuda lá no comecinho, quando alguma coisa está apontando que algo não vai bem, poderia evitar muita coisa.



Mariana: E isso acaba impactando na performance do trabalho e em outros setores, por isso é importante cuidar o quanto antes. Você está falando de ansiedade, de algumas situações que começam a aparecer no ambiente de trabalho, e eu, como consultora de carreira escuto muito isso no escritório. São pessoas que vêm com sintomas de situações causadas no ambiente profissional. Então, vale pedir ajuda. Eu vejo as empresas cada vez mais fazendo isso, as áreas de recursos humanos conscientizando os gestores de que vale pedir ajuda.


Fátima: Temos visto um movimento diferente em que as pessoas estão abrindo espaço para falar do tema, para conscientizar. É uma mudança muito grande com relação a um novo estilo de trabalho, no qual a vulnerabilidade e o mal estar emocional também podem fazer parte e a segurança psicológica é extremamente necessária. As pessoas precisam de ambientes de trabalho mais saudáveis em todos os sentidos, tanto no que diz respeito à segurança física, como psicológica, e também espaços seguros de fala para discutirem essas questões. Nós somos seres integrais e quanto mais considerarmos essa integralidade, mais espaço teremos para cuidar das nossas necessidades, seja na vida pessoal ou no trabalho.



Mariana: A saúde mental ou a falta dela também podem afetar a saúde física?


Fátima: Sim, e muito! A gente fala muito dos sintomas generalistas. O estresse é mestre em causar sintoma generalista. Quando você vai ficando mais estressado, começa a ter dor de estômago, problemas de pele, enxaqueca, insônia... E então, você vai de médico em médico, endócrino, dermatologista. E se você fica muito tempo sob aquele estresse, vai piorando, a concentração não funciona bem, você começa a ganhar ou perder peso e a ficar mais irritado. O estresse faz todo um caminho neuroendócrino que é muito complicado.



Mariana: E aí você acaba tomando remédios para tratar o sintoma e não a causa.


Fátima: Sim, os médicos ainda estão trabalhando de maneira muito isolada, cuidando só do pedacinho dele. O dermatologista, por exemplo, trata do problema como se fosse um problema de pele, quando, na verdade, é preciso haver uma conversa para entender melhor o cenário em que a pessoa está inserida, o que ela está vivendo e que pode estar causando aqueles sintomas. Porque pode ter uma causa emocional impactando diretamente nesses sintomas físicos.


Para as empresas isso é muito complicado, porque você tem uma taxa de sinistralidade que só vai aumentando. As pessoas vão se afastando, procurando vários médicos, se encaminham para cirurgias, uma série de coisas que não teriam necessidade com a prevenção.



Mariana: Explique um pouco sobre essas doenças.


Fátima: Vamos pensar numa régua. Imagine uma régua do humor, em que você tem oscilações ao longo do seu dia que são normais. Se alguma coisa não deu certo você fica mais irritado, ou super feliz com alguma notícia que você recebeu. Isso é normal. Agora, quando isso oscila muito, você passa a sentir uma irritabilidade muito grande, falta de controle do nível emocional, a sua concentração está pior e não consegue manter o foco. Um outro bom sinalizador são os nossos relacionamentos, área em que você começa a ter vários problemas. Isso são sinais que já podem estar caminhando para sintomas. Ou ainda aumento de consumo de bebida alcóolica, de remédios para dormir, relaxantes musculares, muita tensão ou comer muito mais. Tudo isso vai contando de que algo não está bem, assim como o aumento de compras pela internet, e consequentemente, o descontrole financeiro.


É importante observar que todos nós temos o nosso ‘jeitão de ser’. Se eu te conheço e percebo que você começa a mudar ‘o seu jeitão’, é provável que alguma coisa esteja acontecendo. Pode ser algo do ponto de vista emocional, como pode também ser qualquer outra coisa. Mas tem algo acontecendo, e isso é muito importante a gente considerar. Eu posso estar falando do quadro de uma ansiedade generalizada, de uma síndrome do pânico, de um quadro depressivo, em que não há ânimo, disposição, ou de uma dependência química. Essas são as doenças mais comuns, as que mais pedem atenção e o que a gente mais tem visto como causas de afastamento do trabalho.



Mariana: Como é importante identificar! Depois de falar quais são as mais comuns, você pode apontar quais são as menos comuns, mas que também estão relacionadas com a saúde mental?


Fátima: Esse nome, transtorno mental, não ajuda muito. Quando falamos ‘transtorno mental’, já se pensa que a pessoa é ‘transtornada’, que é algo ruim. Mas precisamos aprender a lidar melhor com essas terminologias. Assim como na saúde física, em que vamos aprendendo quais são os problemas, na saúde mental também vamos entendendo quais são os problemas de ordem mental. Em uma situação de esquizofrenia, por exemplo, há desde quadros mais leves, como quadros mais graves que são mais incapacitantes. Há vários tipos de depressão: pós parto, a distimia, que é a síndrome do mal humor, aliás há muita gente que tem e não sabe, e a depressão gestacional.


Assim como os transtornos de ansiedade, em que temos os quadros relacionados aos transtornos obsessivos compulsivos, como o famoso TOC. A obsessão por limpeza, por verificação; outros transtornos, como os obsessivos acumuladores. Outros transtornos são os alimentares, como a bulimia e a anorexia. Há uma infinidade de diagnósticos e eles são muito mais comuns do que muita gente consegue imaginar.

É muito importante fazer uma avaliação caso você perceba alguma coisa. As pessoas, quando começam a perceber sinais, como por exemplo, o fato de estar exagerando na bebida, vão a tudo quanto é lugar, menos ao psiquiatra. Ainda há muito preconceito.



Mariana: Como é importante essa campanha do Janeiro Branco para trazermos essa consciência, ajudar as pessoas a diagnosticarem e procurarem ajuda, romper esses preconceitos. Quem se identifica com alguma dessas questões, como devem fazer para procurar ajuda ou tomar uma atitude preventiva? O que podemos fazer para a prevenção da nossa saúde mental?


Fátima: Tem bastante coisa que pode ser feita. Nós temos um leque de opções preventivas. É preciso abordar primeiramente a questão do estresse, que não é um transtorno mental, mas é um desencadeante de problemas mentais, quando não é cuidado. Você pode ter também o estresse ocupacional, que é relacionado ao trabalho, podendo chegar, inclusive, a uma Síndrome de Burnout.


Como eu posso prevenir? Eu trabalho muito com a ideia de ‘caixinha de primeiros socorros emocionais’. O que tem dentro dessa caixinha? Primeiro, é muito importante que você conheça a sua história. Eu não trabalho com saúde mental à toa, a minha família tem vários quadros diagnosticados. É muito importante eu saber disso. Tanto por parte de pai quanto por parte de mãe, porque eu estou falando de um fator hereditário, que pode contribuir nesse processo. Também olhar para a sua própria personalidade. O autoconhecimento é fundamental para a prevenção. Se eu tenho questões que me incomodam, se eu não estou bem com alguma coisa relacionada a mim, como por exemplo a minha imagem... Nós temos um transtorno relacionado a isso, a pessoa nunca está satisfeita com a própria imagem.


Então, de repente você está falando de algo que vai além de uma questão só de autoestima. Você tem de se conhecer, saber aquilo que te incomoda, entender melhor o que te dói e por quê. O autoconhecimento tem de estar ali na sua listinha de prevenção.



Mariana: Quer dizer que é algo que pode ser hereditário, genético? Não está só relacionado a desenvolver ao longo da vida?


Fátima: Sim, eu vou me usar como exemplo. Tanto por parte de pai quanto por parte de mãe, há quadros depressivos na família. A minha caixinha já vem com quase 50% de chances de eu vir a ter um problema ao longo da minha vida. O fato de eu ser mulher e ter toda a questão hormonal soma mais um pouquinho. Resolvi ter filhos, então a minha atenção tem de redobrar, porque eu posso vir a desenvolver alguma coisa, tanto pela hereditariedade quanto pelo fator hormonal. Eu posso ter um evento de vida muito complicado, que soma, ou estar diante de um estresse muito grande no meu trabalho. Tudo isso vai somando e é muito importante nós termos essa clareza, essa consciência.


Já conhecendo esse histórico familiar, desde muito nova eu já adotava algumas atitudes como forma de prevenção, por exemplo, atividade física. Mexer o corpo, seja qual for a atividade, atua como excelente fator de prevenção, porque ajuda a produzir os hormônios de bem-estar. A música é uma coisa maravilhosa para isso, porque também contribui para a produção desses hormônios. É um dos “remédios naturais” que a gente pode tomar. É um poder que está na minha mão, é uma escolha. Se eu começo a perceber que alguma coisa não está indo bem dentro de mim, eu posso ir lá produzir um pouco de serotonina, fazer uma caminhada, correr um pouco, alongar meu corpo. Conversar com alguém ajuda demais também, é uma coisa que tem de estar na nossa caixinha de primeiros socorros. E buscar ajuda profissional, se necessário.

O processo terapêutico é algo pelo qual todos devem passar, pelo menos uma vez na vida, para olhar quais são seus pontos de fragilidade e quais são as suas fortalezas.


Nós precisamos aprender a olhar para todas essas questões, porque isso nos traz poder.

Conhecimento para mim é poder!




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